Estátua da Liberdade

Alterações climáticas: as novas indulgências?

Statue of Liberty in New York City under blue and white skies

por Luís Gomes // Fevereiro 5, 2023


Categoria: Opinião

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Na doutrina católica, as Indulgências são graças especiais que a Igreja, enquanto administradora dos dons de Cristo, pode oferecer aos fiéis, em certas ocasiões, não só para ultrapassar os efeitos negativos dos pecados, mas também para motivar o crescimento da Fé, da Esperança e do Amor, através de santas práticas religiosas propostas à devoção pessoal e/ ou comunitária.

Desde sempre, o poder utilizou o medo, a criação de problemas artificiais e a imposição de monopólios para condicionar os mais débeis e menos informados da sociedade. Qual o propósito? Extorquir e transferir riqueza dos pobres para os privilegiados e próximos do poder sem qualquer resistência dos primeiros.

grayscale photography of woman praying while holding prayer beads

Quem não paga, o seu destino é o Inferno; quem paga, o Céu a seus pés. Como qualquer pessoa racional pode constatar, “produzir” uma indulgência não tem qualquer custo, para além de um papel, uma caneta e uma assinatura de uma qualquer autoridade eclesiástica. Com o tal documento na mão, o passaporte para o Paraíso está assegurado, claro está, depois do pagamento.

Foi assim que na segunda década do século XVI, o Papa Leão X ofereceu indulgências para aqueles que dessem esmolas para reconstruir a Basílica de São Pedro em Roma: as portas do Paraíso escancaradas para os oferentes.

A técnica é sempre a mesma e funciona quase sempre. Explorando o medo e a ignorância, cria-se um produto ou um serviço que não implique qualquer custo de produção, mas altamente valorizado e apetecível. No fundo, logra-se que grandes massas da população não sejam mais que ratos enclausurados numa roda, a correr incessantemente, explorados sem cessar e felizes com a sua escravidão.

Esse é o papel das moedas fiat: andamos toda a vida a correr atrás delas (Euros e Dólares norte-americanos), sem nunca nos darmos conta que a sua produção não tem qualquer custo. Basta o pressionar de um botão num computador do Banco Central ou um mero registo informático numa partida dobrada de um banco para a magia da criação de dinheiro ter lugar.

focus photography of person counting dollar banknotes

Para criar uma elevada procura por uma determinada moeda fiat, recorre-se às leis de curso legal – nenhum comerciante pode negar pagamentos na divisa fiat emitida pelo Estado – e obriga-se a população a liquidar os tributos exclusivamente nessa moeda.

No caso do emissor da moeda reserva do mundo, como é o caso dos Estados Unidos e a sua moeda fiat, o Dólar norte-americano (USD), obriga-se um dos maiores produtores de petróleo do mundo a cotar os barris unicamente em USDs. Para além disso, sempre que um país tenta opor-se a este monopólio, é fatal como o destino ter o exército norte-americano “à perna”.

Sempre que se exagera na “dose”, como foi o caso em 2020, em que os balanços dos Bancos Centrais duplicaram de dimensão, no caso do Banco Central Europeu (BCE) subiu mais de 4 biliões de Euros (12 zeros) entre Março de 2020 e Junho de 2022, esta massa monetária pode “espirrar” para os bens essenciais da população, a “má inflação”, gerando desconforto popular, com o risco de um “despertar”.

Quando as casas sobem de preço, temos a “boa inflação” – sem riscos. Quando o bife sobe de preço, temos a “má inflação” – corre-se o risco de que a plebe desperte!

Para despistar, entra-se necessariamente no jogo “onde está a bolinha”: não existe, é um fenómeno temporário; afinal veio para ficar, é da guerra, estamos no “pico”, agora é sempre a descer. A exploração da ignorância da população não tem fim, mesmo quando se “servem” os factos de forma nua e crua.

Se visualizarmos a figura seguinte (contratos futuros), podemos observar que as matérias-primas registaram uma valorização sem precedentes entre Março de 2020 e Fevereiro de 2022, precisamente no início da guerra com as “costas largas”.

Variação de preços (%) das principais matérias-primas entre o final de Março de 2020 e o final de Fevereiro de 2022. Fonte: Yahoo Finance. Análise do autor.

Desde então, apesar da “guerra com as costas largas”, bastaram umas subidas das taxas de juro a partir do segundo semestre de 2022, para que a “má-inflação” começasse a desaparecer.

Quando o método de “saque” está em crise, recorre-se quase sempre ao medo e à propaganda. Agora temos a “emergência climática”, devido ao mais que diabolizado CO2, o gás da vida. Mais uma vez, vamos “todos morrer”, caso não paguemos impostos ambientais. Apenas abandonando a prosperidade proporcionada pela energia barata dos combustíveis fósseis é possível “salvar o planeta”.

Reparem nalgumas previsões realizadas por estes “profetas da desgraça”. Em 1975, Peter Gwynne, na insuspeita revista Newsweek, afirmava que vinha aí a idade do gelo.

Entretanto, passámos do frio ao calor. Em 1989, um alto funcionário das Nações Unidas afirmava que nações inteiras poderiam ser varridas da face da terra pelo aumento do nível do mar se a tendência de aquecimento global não fosse revertida até o ano 2000!

Variação de preços (%) das principais matérias-primas entre o final de Fevereiro de 2022 e o final de Dezembro de 2022. Fonte: Yahoo Finance. Análise do autor.

Como a profecia não se concretizou, regressou ainda com mais força: em 2006, Al Gore, no seu livro Uma verdade inconveniente, dizia que a neve deixaria de existir no monte Kilimanjaro. Continua lá. Igualmente, no mesmo livro, afirmou que o gelo dos polos iria desaparecer em 6/ 7 anos! Também continua lá.

Para nos preparar, até já temos os voos da Google Flights medidos em emissões de carbono, devidamente quantificado para ser fácil calcular o imposto a cobrar; mais uma vez, só pagando podemos salvar-nos do fim do mundo ou do inferno se, entretanto, o mundo não acabar.

No século XX, com o advento da “democracia”, o poder mudou de mãos: do espiritual para o mundano; agora, temos a transição do Estado-nação para o Governo Mundial.

O ardil já não é o caminho para o além: o poder ser uma crise económica, onde todos vamos perder o emprego, um vírus invisível, com uma taxa de sobrevivência de 99%, ou o Inferno na Terra.

Como nos salvamos? Deixando de comer carne, abandonando o automóvel, abandonando a higiene diária para poupar água; acima de tudo, continuar a lutar por dinheiro sem qualquer custo ou privacidade, por forma a que entreguemos todas as gotas do nosso suor à casta parasitária no topo da pirâmide. Se não é suficiente, apresentar-nos-á as indulgências do século XXI em pagamento: as Alterações Climáticas.

Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

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