ESTÓRIAS DE VERA CRUZ

A movimentada festa dos praticantes de um ofício extinto

silhouette of two birds on top of building during sunset

por Lourenço Cazarré // Agosto 20, 2023


Categoria: Cultura

minuto/s restantes

Prezado chefe, conforme combinado segue relatório de minha investigação:

Tendo chegado a este Planeta Terra, mais especificamente a uma cidade chamada Brasília, nos últimos dias do mês de Seu Júlio, de 2023, vi surgir logo uma oportunidade de fazer o levantamento sobre os terráqueos ordenado por Vossa Excelência.

Foi quando um senhor, cujo sobrenome seria em nossa linguagem marciana algo como Casa dos Fundos, acessou o Google e lançou naquele sistema de busca duas palavras: Preciso sósia. E acrescentou uma fotografia dele.

People Toasting Wine Glasses

O diálogo

Assumindo o aspecto daquele cidadão, apresentei-me a ele e travamos o seguinte diálogo:

– Para que o senhor precisa de um sósia? – perguntei.

– Para me representar numa festa.

– Festa?

– Sim, amigos reuniram-se e, depois de muito refletirem, resolveram me dar um inusitado presente no dia do meu septuagésimo aniversário: uma festa.

– Pessoas carinhosas, presumo.

– Sim, e extremamente criativas.

– Qual será o meu trabalho?

– Representar-me na tal festa.

– O que terei de fazer?

– Circular entre pessoas sentadas ao redor de mesas e sorrir para elas.

– Mas o que devo dizer a elas?

– Nada. Pessoas que vão a festas de aniversário não querem ouvir nada. Preferem falar muito e em voz alta. E beber loucamente.

– Portanto, posso imaginar que por lá encontrarei alguns chatos.

– Vários. Diga a eles duas ou três frases banais e complete: preciso circular entre meus convidados.

– Mas eles, pelo lado deles, não ficarão chateados?

– Não. Logo pegarão outra vítima.

– Por que o senhor não vai à festa?

– Porque me sentiria ridículo!

– Foi então que resolveu me contratar?

– Sim, porque seria ainda mais ridículo uma festa sem o homenageado. Seria, como diria Mário Quintana, um velório sem defunto.

group of people tossing wine glass

Os retardatários

No dia seguinte, na hora aprazada, seis da tarde, apresentei-me no local indicado. Permaneci por lá até às três da madrugada, quando a dona da casa, literalmente, varreu para fora os retardatários.

Os jornalistas

Pelo que pude depreender, tratava-se de uma festa de pessoas que exerceram um ofício hoje inexistente chamado jornalismo impresso.

Jornalistas eram pessoas inteligentíssimas, que ganhavam pouco, trabalhavam muito e divertiam-se ainda mais. Produziam diariamente algo que era como um livro, só que de folhas imensas.

Os jornalistas dividiam-se em duas categorias: os repórteres, que escreviam inverdades sobre políticos honestos; e os redatores, cuja função era deturpar ainda mais aquelas torpes acusações.

Para executar sua missão, eles se utilizavam de aparelhos chamados máquinas de escrever. Um senhor idoso disse que recentemente levou uma dessas máquinas a uma neta que vive nos Estados Unidos e que a menina ficou realmente espantada:

– Puxa, vô! Ela até imprime.

shallow focus photo of black corded microphone

Os patrões

Jornalistas eram comandados por patrões, pessoas que eles costumavam roubar quando prestavam conta de suas viagens de trabalho.

Dou dois exemplos:

Um jornalista que foi a Manaus e por lá comeu um peixinho de 30 reais num boteco fuleiro apresentou a seu patrão uma nota de 300 reais na qual constava: Bacalhau à Lagareiro.

Um fotógrafo bastante robusto foi a Buenos Aires e lá comprou dois galos de prata numa loja de artesanato. Quando apresentou a nota, salgadíssima, na qual constavam “dos pollos”, o patrão reagiu:

– Mas você comeu dois frangos numa só refeição?

– Veja o meu porte!

Detalhe sórdido e líquido: Na foto acima está a bebida servida à sorrelfa, à socapa, por trás do balcão, só para os mais chegados ao aniversariante, contratante e tratante.

Os bêbados

Quando reunidos, jornalistas preferem contar anedotas sobre seus companheiros de profissão que não tinham controle pleno sobre o ato de ingerir bebidas alcóolicas, pessoas que carinhosamente tratam por “bêbados”.

Célebre é o caso de um deles que foi a Florianópolis e lá caiu no sono em local inapropriado. Ao despertar, viu diante de seus olhos grossas barras de ferro. E exclamou: “Que merda fiz ontem para estar preso?” Ao levantar-se, percebeu que estava dormindo sobre uma calçada da Avenida Beira Mar Norte e que a grade pertencia a um edifício, que com ela, a grade, procurava livrar-se dos mendigos.

A piscina

A festa foi realizada à beira de algo que chamam piscina, uma escavação que contém água, recoberta por uma grade de proteção feita com fios de nylon trançados.

Durante a festa, curiosamente, caíram apenas duas pessoas (ambas abstêmias!) na tal piscina. Um desatento jornalista esportivo cruzou-a rapidamente, em ângulo oblíquo, tropicando sobre a grade de proteção. Teve ali, disse ele depois, a ideia para uma nova competição olímpica.

O outro jornalista não chegou a atravessar a piscina. Deu apenas meia dúzia de delicados saltos acrobáticos, de rara beleza plástica, sobre a tela de proteção, mal molhando os sapatos.

As bebidas

Jornalistas, aparentemente, gostam muito de beber. Os mais idosos, que eram numerosos, davam preferência a uma bebida insípida, incolor e inodora chamada “água”. A maioria, porém, inclinava-se por um suco escuro servido em taças bojudas. A minoria dedicava-se a um líquido amarelado que era retirado de garrafas vermelhas. Essa última espécie me pareceu a mais sedenta.

Os pelotenses

A mesa que mais me chamou a atenção era aquela na qual estavam pessoas que se consideravam realmente especiais, mais cultas e civilizadas. Eram oriundos todos de um lugar chamado Pelotas.

Havia um chamado Karl Edward, que se apresentava como Príncipe da Pomerânia, e outro que se dizia Kzar de Leningrado, Serguei Narigovitch. Um outro era plebeu, porém milionário, chamado Joseph Cross, o Lorde das Cidades Satélites. Nessa mesa havia um cidadão que não quis me declinar seu nome. Disse-me apenas: “Sou O Empresário Paulista”. O mais jovem daquela mesa sussurrou: “Não, eu não sou, como andam dizendo por aí, O Novo Tubarão Branco”.

Lourenço Cazarré vive em Brasília e é jornalista e escritor, sendo autor, entre outros, dos romances Kzar Alexander, o louco de Pelotas e A longa migração do temível tubarão branco


Nota do autor:

Embora não seja comum o autor dizer de onde tirou a ideia de escrever uma crônica (na minha época, em Pelotas, dizia-se: quem explica é porteiro de boate), resolvi dar aqui um breve esclarecimento:

Odeio aniversários, em especial os meus. Sabendo disso, meus filhos resolveram comemorar o septuagésimo. Chamaram inclusive pessoas de lugares distantes. Quando soube, fiquei furioso. No tal dia, quase não fui à festa. Mas acabei cedendo ao choro da minha mulher. Lá o vinho tratou de acalmar-me. Como a maioria dos convidados era jornalistas com os quais trabalhei nos anos 1970 e 1980, resolvi vingar-me deles.

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