ESTÓRIAS DE VERA CRUZ

Evangelho das coisas ínfimas

silhouette of two birds on top of building during sunset

por Lourenço Cazarré // Setembro 10, 2023


Categoria: Cultura

minuto/s restantes

Então, por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em voz alta: “Elohi, Elohi! Lemá sabachtháni?”, que traduzido quer dizer: “Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?”

Marcos 15,34


Eu, o Narrador, vos digo:

Olhai a grande cidade obscena sob o sol luminoso. Encurralados entre o mar e as altas montanhas de pedra, milhares de edifícios. Apertados uns contra os outros, parecem assustados, mas não têm para onde fugir. O sol no alto do céu azul está a vigiá-los.

Atentai bem:

A boca negra da estação do metrô incessantemente vomita pessoas cabisbaixas e apressadas que provavelmente têm coisas urgentes para fazer. Mas o mundo passaria bem sem elas e sem as coisas que pretendem fazer. O sol não se importa com elas, quer apenas fustigá-las.

Todas as histórias se parecem:

De quando em quando corre um rápido sopro de ar pelo meio das ruas escaldantes. É como um suspiro que escapasse do peito da grande cidade de concreto. Nada mais que uma breve lufada que dobra a esquina e segue. E, logo, as ruas voltam ao ranço de todos os dias: misto de mijo velho e chope azedo.

black and white building during daytime

As cidades não se diferenciam muito:

Quem consegue vencer o labirinto das ruelas estreitas, pode ver o mar que se estende preguiçoso e verde sob o céu sem nuvens. Na branca areia da praia, meninos e meninas andrajosos dormem amontoados. Por toda a longa noite cataram moedas no asfalto. Agora repousam. Sujos e ainda famintos. Quando acordarem, já levantarão com a mão estendida. Pedindo. Mas também ameaçando.

A gente é sempre a mesma:

Entre as altas palmeiras, homens amarram grandes fardos de latas amassadas de cerveja. Milhares de latas. É a fruta que mais dá por ali, seja nos regadios do asfalto preto seja no latifúndio da areia infértil. Dá coco também. Ocos cocos vazios que nada valem.

Mesmo pesaroso, devo informar-vos que:

Homens e mulheres passeiam pela grande calçada que separa a branca areia da barreira de edifícios. Aos milhares, velhos quase todos, azafamados. Nada têm a fazer, porém estão sempre apressados. Incessantemente, vão velozes de uma ponta à outra da longa praia. Parecem seguros de que, com essas caminhadas, enganarão a morte.

Eu, fiscal de ninharias, vos asseguro que:

A grande cidade movimenta-se também no interior dos edifícios. Pessoas vão de uma peça a outra realizando pequenas tarefas. Falar ao telefone, por exemplo. Preparar um café. Assistir televisão. Estão vivas e é isso que se espera de pessoas vivas: que andem de um lado a outro fazendo pequenas coisas.

Eu vos alerto, porém, para um detalhe:

Naquele meio-dia algo viria para sacudir o ramerrão.

Escutai o meu relato:

Um homem negro, de uns quarenta anos, nem alto nem magro, estava deitado numa daquelas calçadas sujas. Não era um homem decente derrubado por um mal súbito, como pode ocorrer às vezes. Não! Via-se pelas roupas rasgadas que era um nenhum. Tinha uns poucos fios de cabelos brancos nas têmporas. Ostentava os pés inchados e os calcanhares rasgados dos bêbados. Era, portanto, um dos tantos milhares que dormem naquelas calçadas e nos poucos desvãos onde os síndicos de edifícios ainda não colocaram ferros pontiagudos.

Eu, auditor de insignificâncias, preciso insistir:

Havia um homem preto de uns quarenta anos deitado numa calçada sob o sol amarelo. Daria um belo quadro, se ainda existissem pintores. O sereno rosto quase azul, a rala barba, o corpo ossudo por baixo dos trapos. Parecia estar dormindo. Mas, não, ele não estava dormindo.  Isso as pessoas só perceberam depois.

Eu, praticante da esquecida arte dos contadores de histórias curtas, asseguro-vos que:

Os que deixavam apressados a boca da estação do metrô tinham que desviar do homem estirado sobre as lajes rachadas do largo. Os que chegavam para pegar o trem também contornavam aquele corpo estendido no chão. Se estivesse morto, certamente alguma alma caridosa se encarregaria de jogar uma folha de jornal sobre ele. Mas o homem estava vivo.

white and red textile on gray concrete floor

Como sabeis, meu dever consiste em ajuntar minúcias ridículas:

O braço esquerdo dobrado é o travesseiro. O braço direito, ligeiramente flexionado, está estendido diante do corpo. Um movimento muito leve, carinhoso, percorre a mão desse braço direito.

Sim, reconheço que vós não precisais desta parábola:

Muitos contornam o corpo sem lançar um só olhar para ele porque sabem que, hoje em dia, o que mais há são corpos caídos pelas ruas desta cidade.

Ouvi, porém, o que tenho a declarar:

Mas também existe gente curiosa. Uns velhos bem velhos e uns meninos bem meninos que olham o corpo estirado e percebem logo o lento movimento daquela mão. Uns riem abertamente. Outros sorriem. Outros, subitamente chocados, viram o rosto.

Prestai atenção neste irrelevante pormenor:

Naquela rua, havia um gato dormindo dentro de uma vitrina vazia.

Digo-vos mais:

O homem caído tem os olhos fechados e uma expressão quase beatífica. Seus lábios estão ligeiramente entreabertos de modo que todos podem ver uns belos dentes brancos e, entre eles, a ponta lúbrica de uma língua vermelha. É manso, quase imperceptível, o movimento daquela mão de grossos dedos que vai e vem empolgando o cilindro de carne quente.

Sim, admito que aqui ninguém precisa de fábulas, no entanto:

O homem do negro rosto azulado está fazendo amor consigo mesmo. Certamente pensa numa mulher porque seu rosto está como que suavizado por um sorriso. Uma mulher distante no tempo. Uma jovem mulher. E lentamente ele se afaga. Indiferente ao sol e aos edifícios. Sempre pensando numa fêmea. Em certos trechos do corpo dessa mulher. A bunda. Os seios. A racha úmida. A catinga boa que elas exalam quando estão excitadas.

Concluirei, sim:

Indiferente às pessoas apressadas e estamos todos apressados , o homem continua a se acariciar. Indiferente a tudo, o preto de cabelos ligeiramente grisalhos nas têmporas permanece deitado no largo da estação executando um movimento muito suave com a mão direita. A mão que acaricia uma parte daquele mesmo corpo. Um movimento muito suave sob o sol inclemente, na calçada, na clareira entre os altos edifícios.

Eis, filhos de Deus, a moral desta alegoria:

Muitos se reconheceram naquele movimento triste de mão solitária: o amor que se fabrica a si mesmo, o amor possível.

Lourenço Cazarré vive em Brasília e é jornalista e escritor, sendo autor, entre outros, dos romances Kzar Alexander, o louco de Pelotas e A longa migração do temível tubarão branco

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