CARTAZES HÁ MUITOS

Livre: ‘Verde. Justo. Juntos’

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Face à desconfiança que permeia a classe política devido aos efeitos dos recentes escândalos de corrupção, estas novas eleições legislativas surgem como uma oportunidade inesperada para redefinir o panorama político nacional em dois níveis: oferecendo à direita a possibilidade de recuperar a influência perdida e aos novos partidos a ocasião de ampliarem sua voz e ganharem maior escrutínio.

Para analisar a publicidade, o filósofo e linguista Roland Barthes propõe três níveis – icónico, simbólico e linguístico -, os quais serão aplicados nesta sétima análise dedicada ao LIVRE, partido fundado em 2014 por um grupo de cidadãos portugueses, com destaque para o historiador e escritor Rui Tavares. Começo a análise pela designação polissémica do partido: “livre” é tanto um verbo quanto um advérbio ou um adjectivo de dois géneros, incorporando a acção e os valores que o caracterizam. Desde logo esta denominação permite posicionar de forma clara este partido na ala esquerda, integrando princípios como independência, isenção e desembaraço, sugerindo ausência de comprometimento.

Quanto ao seu logótipo, foi escolhida a papoila, uma flor delicada e frágil. Se por um lado, simboliza a paz, por outro, as papoilas vermelhas estão relacionadas com o sono eterno e a morte. Nos Estados Unidos, simbolizam os heróis de guerra falecidos, pois diz-se que cresceu em campos de batalha onde muito sangue foi vertido. Por outro prisma, o design desta flor vermelha, cor que expressa valores de esquerda, tem o centro preto composto por um círculo central rodeado de cinco pontos que lembra a impressão de uma pata animal. Uma iconografia que está muito em consonância com o princípio basilar da ecologia. Curiosamente, o principal uso terapêutico desta planta anual, que floresce entre Fevereiro e Setembro, é calmante, à semelhança aliás, da prestação discursiva sonolenta do seu líder.

Outdoor do LIVRE na Calçada de Carriche, em Lisboa. Foto: ©Santiago Cecílio

Sendo o LIVRE defensor de princípios progressistas, ambientalistas e de equidade de género, o seu discurso é naturalmente moldado pela ideologia de género e a defesa de paridade entre mulheres e homens. No entanto, a sua lista de candidatos para as eleições Legislativas de 2024 é composta por 49 homens versus 25 mulheres, o que revela um desequilíbrio de género, com apenas 34% de candidatas. A coerência está mais cara do que o azeite Gallo Virgem Extra.

Se em tempos, Rui Tavares revelou algum pêlo na venta, quando em 2011 abandonou a delegação do Bloco de Esquerda ao Parlamento Europeu, acusando Francisco Louçã de ser incapaz de lidar com opiniões contrárias, ultimamente tem vindo a assumir-se como caçador de alianças, adoptando uma postura low profile. Tal está bem patente no anterior slogan da campanha “Bota acima não abaixo!” das legislativas de 2022, assumindo o apoio ao PS, diria incondicional, defendendo a noção que assim se facilitaria a governação. Uma oposição meiga e carinhosa.

No próximo dia 10 de Março, o LIVRE, que este ano celebra uma década, visa triplicar a sua representação na assembleia, passando de um deputado para três. Um resultado que tem a grande vantagem de resolver a centralidade na figura de Rui Tavares. Fazendo jus aos seus princípios de equidade, esta campanha eleitoral pode ser uma oportunidade para dar a conhecer os outros rostos — personalidades geralmente com muito pouca projecção mediática — que querem levar ao parlamento. Sublinha-se que segundo um estudo realizado pela Imago-Llorente & Cuenca em parceria com a Universidade Católica Portuguesa e divulgado em 2015, Rui Tavares foi considerado o político mais influente da rede social Twitter em Portugal. Talvez por isso seja considerado um activista, nova profissão bastante em voga.

Ao contrário da maioria das campanhas adversárias que estão na rua, o LIVRE começou por um cartaz sem o retrato do líder, talvez para não evidenciar o facto de ser sempre a mesma pessoa. Assim, não se aproveita da credibilidade e notoriedade da sua figura principal, preferindo uma composição gráfica neutra centrada na iconografia da flor. Com dois motivos de outdoor, vemos uma imagem close-up do carpelo, também chamado de pistilo, que representa a parte reprodutiva feminina da flor, geralmente localizada no seio da estrutura floral.

Outdoor do LIVRE, na Alameda, em Lisboa. Foto: © Sara Battesti

Sendo o outdoor uma peça de comunicação que é lida numa fracção de segundo, esta imagem pode ser confundida com um ácaro ou um vírus, o que é natural após sermos expostos a tantas imagens científicas do SARS-CoV-2. Embora a composição seja atraente e com cores distintivas, pode este elemento gerar alguma repulsa.

As cores predominantes da campanha do LIVRE nestas eleições são o verde lima e o vermelho aberto, destacando os ideais ambientalistas e de esquerda desta iniciativa política europeísta. Estas cores simbolizam a postura do partido em relação às questões ambientais e às políticas progressistas. O LIVRE declara que “A única hipótese que os europeus têm de conseguir enfrentar esta fase de grande instabilidade internacional é terem união contra os imperialismos. Nós (LIVRE) somos contra todos os imperialismos, quer o dos EUA, quer o da Rússia”, argumenta Rui Tavares.

Nos dois outdoors de 8×3 metros, a designação do partido é destacada com grande protagonismo, atingindo o desejo por liberdade de um certo eleitorado. No centro, um headline apresenta duas mensagens complementares: no primeiro, lemos “o país que queremos”, enquanto no outro são resumidas em apenas três palavras-chave que materializam a promessa eleitoral: “verde. justo. juntos.” Em ambos os casos, que coexistem no espaço público, o apelo é simples, claro e fácil de memorizar. O ano de 2024 é escrito usando várias cores, evocando a diversidade cromática do movimento LGBTQIA+, o que contrasta com o preto da sua designação que aparece ao lado. Apesar de estar destacada por uma caixa branca, o facto de estar à esquerda reduz a sua força.

Placa em PVC nos postes de electricidade da Avenida da República, em Lisboa. Foto: ©Sara Battesti

O XIII Congresso do partido, realizado nos dias 27 e 28 de Janeiro passados, marcou uma mudança no design da campanha, graças ao envolvimento do atelier de comunicação Change is Good, sediado em França e fundado pelo designer português José Albergaria, que também esteve à frente da direcção da campanha presidencial de Ana Gomes em 2021. Nesta nova fase, o partido optou por manter um grafismo sem imagem fotográfica, com composições geométricas, uma verde e outra vermelha, em sintonia com os outdoors. Além disso, lançou um novo slogan, “Contrato com o FUTURO”, com o logo recentemente redesenhado abaixo, onde a palavra LIVRE ganha destaque e permite uma dupla leitura, ao acrescentar-se à promessa “Contrato com o Futuro Livre”.

Considerando as declarações de Rui Tavares sobre a visão para Portugal, que inclui uma economia de alto valor acrescentado, conhecimento e descarbonização, com o objectivo de erradicar a pobreza estrutural, é surpreendente observar que o partido optou por promover-se com cartazes de pequeno formato, feitos em placas de PVC alveolar fixadas com abraçadeiras de plástico, uma escolha que vai contra as preocupações ambientais. Esperemos, pelo menos, que possam ser retirados e reciclados no futuro, prolongando seu ciclo de vida, como a CDU tem conseguido fazer.

Recentemente, foi lançado um motivo em que finalmente aparece um grupo de candidatos sorridentes com Rui Tavares no centro com uma fotografia meio amadora com um pinheiro em pano de fundo. A composição mantém-se capitalizando as anteriores versões, mas como um novo repto: “Como o futuro deve ser”. Uma abordagem que vem contrabalançar a percepção pública de que o LIVRE se centra muito na sua figura, corroborando com a resposta do historiador que afirmo que o partido sempre funcionou de forma plural.

Novo outdoor da campanha LIVRE na Calçada de Carriche, em Lisboa. Foto: ©Sara Battesti

É verdade que o LIVRE é quem menos investe em propaganda. Todavia, em comparação com 2022, seus gastos duplicaram, totalizando cerca de 95 mil euros. Destes, 35 mil são dedicados à campanha de outdoors (estruturas, cartazes e telas) e 10 mil para concepção e estudos. Apesar disso, trata-se de um investimento modesto se considerarmos os oito milhões gastos pelo conjunto de partidos com assento parlamentar. É importante destacar que é um dos partidos com eleitores mais escolarizados, sendo que 60% deles frequentaram a universidade. Em relação à idade e ao sexo, não há diferenças significativas.

Há quem considere intrigante a trajectória política de Rui Tavares (ou Ruizinho, como é carinhosamente chamado por alguns jornalistas), que parece seguir uma linha consistente de procura de novos cargos: até 2025, é vereador sem pasta na Câmara Municipal de Lisboa, sendo assessorado por oito especialistas em part-time, cujos contratos totalizam 280 mil euros. Agora, assume a liderança da candidatura para estas eleições legislativas e deixa em aberto a possibilidade de uma candidatura às eleições europeias previstas para Junho. Numa entrevista à agência Lusa Tavares justifica a decisão afirmando: “As pessoas sabem perfeitamente o que a Europa e o projecto europeu significam para mim, e que é uma área na qual tenho tido sempre muita actividade, empenho e interesse”, em jeito de carta de motivação à UE.

As campanhas eleitorais representam momentos privilegiados na vida política democrática, nas quais são concebidas estratégias e tácticas para transmitir mensagens e persuadir. É essencial respeitar as expectativas fundamentadas em acções reais que sustentam tais apostas.

Ilustração: ©Ruy Otero e Bruno Cecílio

Na cobertura da campanha, o LIVRE tem agitado a comunicação social ao frisar que “alguns são levados ao colo”. Tal afirmação, conforme observado por muitos, pode parecer ligeiramente descabida para um político que é protegido por algumas figuras filantrópicas mundiais. Há quem diga até que estas mesmas figuras também financiam muitos órgãos de comunicação social através de suas organizações ou fundações.

Citando o linguista Patrick Charaudeau, “o discurso político na arena pública envolve um jogo de máscaras e de imagens construídas no discurso.” Ora, se a eloquência do discurso existe, a consistência não parece ser uma preocupação. Basta recordar a polémica em torno da antiga deputada Joacine Katar Moreira, eleita em 2019, que viria a representar o partido por cerca de apenas dois meses. O meu filho, que na altura tinha 8 anos, até sugeriu a mudança de nome do partido para “NÃO MUITO LIVRE”.

Sara Battesti é especialista em Comunicação


Avaliação do cartaz

Design: 3/5

Impacto: 3/5

Eficácia: 3/5

Média: 3/5


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