Recensão: Miséria e esplendor da Tradução

O tradutor, criador ou traidor?

por Pedro Almeida Vieira // Março 1, 2024


Categoria: Cultura

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Título

Miséria e esplendor da tradução

Autor

JOSÉ ORTEGA Y GASSET (tradução: Pedro Ventura)

Editora (Edição)

Guerra & Paz (Janeiro de 2024)

Cotação

19/20

Recensão

Pelo menos até ao século XVIII, a tarefa da tradução foi altamente elogiada, porque se considerava que se o escritor tinha completa liberdade criativa, o tradutor sofria as amarras do escrito (impostas pelo escritor), exigindo-se que fizesse mais do que substituir as palavras de um para outro idioma. E isso era mais do que um trabalho. Era, e é, efectivamente, uma arte maior.

Miséria e esplendor da tradução, obra seminal do espanhol José Ortega y Gasset, originalmente publicada em 1937 num diário de Buenos Aires, enquanto ainda estava exilado na França, mergulha na complexidade e nuances do acto de traduzir, mas não vai, longe disso, pela parte técnica, mas sim filosófica e até humanista. É obra para todos os amantes das línguas e da linguagem. E lê-se de um fôlego.

Contrariando a visão da tradução como uma mera tarefa mecânica, Ortega y Gasset defende, como esplendor, a interpretação e recriação do texto original, mas que se pode transformar – ou traduzir – numa traição (traduttore, traditor) ao escrito original, se na nova língua não forem consideradas as particularidades culturais, históricas e contextuais envolvidas.

Um dos conceitos-chave discutidos por Ortega y Gasset é o da capacidade fundamental de todas as línguas serem capazes de serem (bem) transpostas noutro idioma, negando a visão tradicional de que algumas línguas são intraduzíveis ou que a tradução inevitavelmente resulta em perda de significado. E isso porque, embora as línguas possam diferir no seu vocabulário e estrutura, comungam uma essência permite a compreensão mútua entre diferentes culturas.

Contudo, para que tal seja feito com sucesso, Ortega y Gasset explora no seu texto a relação entre tradução e criatividade, envolvendo escolhas estilísticas e interpretativas, de modo a ser transmitido ao destinatário da obra traduzida  algo que seja compreendido face à suas sensibilidades e aspectos culturais.

Em todo o caso, a ‘radical tradutibilidade’ nem sempre é uma realidade prática, sobretudo quando se trata de expressões idiomática, trocadilhos e conceitos culturais específicos. Ortega y Gasset fornece exemplos curiosos: “Face à nossa paupérrima classificação dos nomes em masculinos, femininos e neutros, os povos africanos que falam as línguas bantas apresentam outra riquíssima: uma destas, há vinte e quatro signos classificadores – quer dizer, frente aos nossos três géneros, nada menos que duas dúzias. As coisas que se movem, por exemplo, são diferenciadas das inertes, o vegetal do animal, etc. Onde uma língua mal estabelece distinções, outra exibe uma exuberante diferenciação. Em jeje há trinta e três palavras para expressar outras tantas formas diferentes do andar humano, do ‘ir’. Em árabe, existem cinco mil setecentos e catorze nomes para o camelo” (pg. 46-47).

Por esse motivo, mais do que um ser invisível e transparente – que, na maior parte das obras surge, se tanto, na ficha técnica –, Ortega y Gasset defende a figura do tradutor como um intérprete e criador, que deve ser destacado na obra.

Por isso, de uma forma muito apropriada, e coerente, a Guerra e Paz – que é a primeira editora portuguesa a publicar o ensaio de Ortega y Gasset em Portugal – identifica Pedro Ventura como tradutor (e introdutor) logo na capa.

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