CARTAZES HÁ MUITOS

PAN: ‘Avançamos, pelas causas’

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Em contagem decrescente para as legislativas de 2024, esta foi uma semana recheada tanto de debates políticos como de fait divers e trivialidades. De facto, o eleitorado tem sido estimulado das mais diversas maneiras nos canais de comunicação formais ou informais. E na rua também apareceram novos motivos e novas promessas eleitorais para esta recta final das campanhas. Quem dá mais?

Com o objectivo de recuperar um grupo parlamentar nestas eleições, o PAN lançou uma campanha de outdoors concebida internamente aliando um mupi genérico com o retrato da sua líder Inês Sousa Real e estruturas de grande formato com mensagens provocatórias para ganhar maior visibilidade e quiçá despertar a polémica.

Comecemos pela designação curta deste partido: PAN é o acrónimo de Pessoas, Animais e Natureza e inevitavelmente traz à memória o prefixo que exprime a noção de totalidade, universalidade, o que lhe confere força e impacto.

Para um aficionado de banda desenhada, poderá lembrar uma onomatopeia que sugere a imagem auditiva de algo a embater noutra. Talvez por isso, a expressão fonética não esteja completamente sedimentada, algumas pessoas pronunciam o ‘N’ final, enquanto outras não. Oficializado em 2011 pelo Tribunal Constitucional, a sua designação fundadora era Partido pelos Animais e pela Natureza em linha com a sua agenda animalista, que orientou aliás a escolha dos brindes — sacos e utensílios para cães e gatos — que distribuiu numa recente arruada no parque das Nações.

Mupi do PAN na Avenida da República, em Lisboa. Foto: ©Sara Battesti

O motivo mais disseminado pelo espaço público é o mupi verde com o retrato sorridente da líder ao lado de um headline que se assemelha a um balão de fala das BD a clamar: ‘Avançamos, pelas Causas’. O fundo verde mentol que alude à natureza é mais do que expectável, porém esta é também a cor escolhida pelo PS, o que acaba por não ser distintivo e comprometer a desejada rápida identificação.

Na fotografia, Sousa Real é empática pelo seu olhar franco e amigável, enquanto o vestuário escolhido transmite sofisticação, usando um blazer de tons dourados que contrasta com o fundo verde. Espera-se que seja uma indumentária Made in Portugal e amiga do ambiente.

Quanto ao seu logótipo, emprega uma fonte com pouca personalidade adquirindo uma expressão visual quase infantil ou ingénua, conjugado com a designação completa do partido por baixo, com fraca legibilidade. O símbolo é uma árvore com um tronco em forma de braço e mão humana, ilustrando duas vertentes da missão do partido, ficando incompreensivelmente de fora a defesa da causa animal. E ao assemelhar-se a tantas ilustrações comuns royalty free, o seu design é só banal.

Em Lisboa, numa das principais entradas da cidade a propaganda PAN é composta por três outdoors usando uma composição exclusivamente tipográfica, que varia nas cores de fundo. O primeiro outdoor pergunta: “O tamanho importa?” O segundo responde: “Importa.” E o terceiro completa: “Se com 1 é bom, em grupo é ainda melhor.”

Outdoor do PAN na Calçada de Carriche, em Lisboa. Foto: ©Santiago Cecílio

A tentativa do partido em associar sua abordagem ao filme “Três Cartazes à Beira da Estrada” de Martin McDonagh é um tanto ou quanto forçada. O filme retrata uma história comovente de uma mãe desesperada pela inércia da justiça em relação ao desaparecimento da sua filha, utilizando cartazes como forma de estimular um maior envolvimento da polícia e comunidade local.

Comparativamente, a versão do PAN parece descontextualizada e até desrespeitosa em relação ao tema e à mensagem do filme, assim como o tom e estilo da campanha política serem distintos da seriedade do enredo cinematográfico. Esta mensagem de estilo bem vulgar revela uma estratégia superficial para chamar a atenção, a qual não se alinha adequadamente com a profundidade do filme. O denominador comum em ambos os contextos reside apenas no desespero de uma chamada de atenção.

A campanha de estilo grosseiro visa captar mais votações para alcançar um aumento o número de deputados, recuperando assim o protagonismo que o partido teve nas eleições de 2019 quando elegeu quatro deputados (com a liderança anterior).

Outdoor do PAN na Calçada de Carriche, em Lisboa. Foto: ©Santiago Cecílio

Compensando as limitações orçamentais, esta é uma abordagem destinada a potenciar o impacto, e alimentar reacções em cadeia, o que se torna bastante eficaz para partidos mais recentes. Estas estratégias provocatórias têm de facto maior propensão em atrair as massas, facilitando a memorização dos slogans, como é evidenciado pela ascensão do IL, embora este partido tenha apostado num conceito criativo fácil de adaptar que sublinha diferentes vectores da sua proposta de acção governativa.

Desde 2021, a liderança de Inês de Sousa Real tem sido alvo de críticas, tanto internas quanto externas, o que fragiliza o potencial de crescimento do partido. As críticas surgiram do facto de deter uma empresa de exploração agrícola de mirtilos, como Joaquim Sousa acusou-a de realizar “purgas estalinistas” e de transformar o PAN num “partido oco, de cariz animalista excessivo”.

Atendendo que a base de eleitores do PAN é predominantemente composto por mulheres e licenciadas, este conceito e estilo não estão propriamente muito em consonância com este perfil, representando um ponto fraco além de limitar o impacto da campanha de rua.

Outdoor do PAN na Calçada de Carriche, em Lisboa. Foto: ©Santiago Cecílio

Quanto ao design dos outdoors e mupis, é válido apontar que a inconsistência pode comprometer a projecção do partido e dificultar o reconhecimento pelos eleitores. O uso do hashtag #juntateaogrupo revela a intenção de atrair apoiantes e valorizar os benefícios inerentes ao aumento de deputados do partido na Assembleia da República. Com um grupo parlamentar maior, os avanços para as causas que o partido representa serão ainda maiores, factor de persuasão do seu eleitorado para contribuir para o crescimento do PAN. Numa fase anterior a esta, foi desconcertante saber que o PAN chegou a usar a inteligência artificial como parte de uma estratégia de expansão do seu eleitorado. Ora, é fundamental o partido manter a sua autenticidade assim como uma linha orientadora para garantir que a sua mensagem e imagem ressoem dentro da comunidade portuguesa, evitando que sejam diluídas por tendências passageiras.

“Touradas só na cama e com consentimento” é a mensagem desafiadora que o partido lançou mais recentemente nas proximidades do Campo Pequeno. Apesar de adoptar uma linguagem próxima do tríptico da Calçada de Carriche, confunde-se ao longe com um anúncio do IKEA não só pelo fundo branco como pela fotografia da cama de casal de design neutro, não conseguindo assim assegurar uma coerência gráfica com os restantes motivos que estão na rua.

Para instigar a polémica mediática, o partido procurou amplificar o seu impacto com a distribuição de uma nota de imprensa de maneira a contrabalançar as limitações da sua visibilidade nos debates televisivos de formato compacto. O candidato com mais horas de direito de antena terá possivelmente sido o Ricardo Costa, do “partido SIC”. Terá sido a eficácia da última campanha desta marca sueca que convenceu o PAN a relançar o debate aceso em torno da abolição das touradas com um outdoor afixado nas redondezas da praça de touros? Subjacente está o desejo de acabar com o financiamento público (que se eleva em 19 milhões de euros) desta prática cultural enquanto acto gratuito de crueldade animal. Uma forma de contestar as políticas vigentes e sublinhar a sua força como partido animalista, o que de certa forma segue a abordagem populista tão em voga.

Outdoor do PAN dedicada à abolição da tourada na Avenida da República, em Lisboa. Foto: ©Liliane Miliciano

Na recta final da campanha eleitoral, observamos uma mudança nos cartazes políticos, exemplificados pelo PS e AD, que passam a incluir promessas bem concretas. O PAN também não é excepção, embora não desfrute da mesma notoriedade, nem promova a pluralidade de promessas eleitorais. Como afirmou o linguista francês Charaudeau em 2008, “todo acto de linguagem ocorre numa arena de aventuras, onde estão em jogo apostas e expectativas. Isso implica que, nesse processo, os intervenientes políticos recorram a uma diversidade de manobras e estratégias discursivas para comunicar de forma clara suas intenções.”

Num ano marcado por desafios significativos para a governação, como os conflitos mundiais, a tensão geopolítica no estreito de Taiwan, o crescimento económico modesto e as eleições nos EUA, é fundamental que os partidos políticos comuniquem de forma pertinente e abrangente para conquistar vínculos significativos com os cidadãos. À luz dos processos de transformação delineados por Charaudeau, a pertinência do discurso político exige que seja adequado ao contexto e à finalidade, levando em consideração uma base comum de valores sociais e compreensão do mundo.

Para conquistar um vínculo sólido com o seu eleitorado, um partido precisa articular sua mensagem de forma a abordar as preocupações da população, incorporando uma visão abrangente que englobe questões sociais, ambientais e económicas. Isso significa que deve ser capaz de oferecer propostas e soluções que ecoem as necessidades e aspirações da sociedade, demonstrando uma compreensão profunda dos desafios enfrentados e um compromisso genuíno com a melhoria do bem-estar colectivo.

Cartaz do Festival dos Túbaros, na Rotunda da Malveira. Foto: ©Sara Battesti

Como partido defensor de um novo paradigma moral, ético, cultural e civilizacional, esta campanha parece não reflectir uma grande elevação intelectual, privilegiando a polémica para inspirar fervor e lealdade entre os seguidores que se identificam.

Importa ainda notar que esta forma de fazer campanha incorpora desvantagens, como alienar eleitores potenciais e gerar controvérsias negativas a longo prazo. Assim sendo, esta estratégia deve ser cuidadosamente considerada e avaliada em relação aos benefícios e riscos. Ao proporcionar um controlo total sobre o conteúdo político, em contraste com o conteúdo filtrado e interpretado pela comunicação social, os cartazes de rua continuam a ter futuro pela sua capacidade mobilizadora do eleitorado e, em certos casos, persuadir pessoas indecisas, desiludidas com o sistema político, e até converter os abstencionistas. Como expressão da identidade e posicionamento de cada força partidária, os outdoors continuam a ter um papel de destaque na comunicação política, até porque ninguém lhes é indiferente.

E assim, neste oitavo acto, chegamos ao fim desta rubrica ‘Cartazes há muitos’.

Sara Battesti é especialista em Comunicação


Avaliação do cartaz

Design: 2/5

Impacto: 2/5

Eficácia: 1/5

Média: 1,67/5


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