Correio Trivial

Já chega de lhes dar importância!

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minuto/s restantes


Para quem segue, com algum cuidado, a política internacional e as redes sociais, para quem passa alguns minutos nos cafés e supermercados e presta alguma atenção às conversas dos seus concidadãos, o aumento de votação no partido Chega só pode espantar por não ter atingido números mais elevados.

Aos votos de protesto, de quem se sentia defraudado com os últimos Executivos, o que poderia fazer com que este partido chegasse aos dois dígitos, juntaram-se os de uma população que tem como única fonte de informação os canais de televisão com programas de terceiro mundo, os discursos populistas de quem tudo promete e as palavras de ódio contra os governantes que, no dizer daqueles, se servem do Poder para todo o tipo de ilegalidades.

André Ventura, presidente do Chega. (Foto: D.R./Chega)

Centenas de milhares de portugueses acreditaram que os autores destas promessas tinham capacidade, e interesse, em mudar.

Melhor dizendo, quiserem acreditar.

Quiserem acreditar com tanta vontade que deram de barato as constantes contradições nos discursos.

A criação de milhares de avatares nas redes sociais, ajudou.

Notícias falsas, acusações sem fundamento, elogios aos demagogos, tudo feito, na maior parte da vezes, por figuras fictícias, inundaram todas as redes sociais.

A exemplo do que já acontecera com, por exemplo, Trump, nos Estados Unidos, Bolsonaro, no Brasil, Andrzej Duda, na Polónia e Tamás Sulyok, na Hungria.

Todo este processo está estudado e foi excepcionalmente descrito no livro, de Giuliano da Empoli, “Os Engenheiros do Caos”.

Um cartaz do Chega foi vandalizado, em Lisboa, durante a campanha para as eleições legislativas.
(Foto: PÁGINA UM)

Há que reconhecer mérito à máquina do Chega e lamentar a ingenuidade de grande parte dos nossos conterrâneos.

Como aceitar, por exemplo, que conhecido o discurso de ódio contra os imigrantes os nossos emigrantes, tenham votado maciçamente neste partido, ao ponto de lhe dar a vitória nesses círculos?

Gente que sofreu na pele a separação da família, o abandono da sua terra, a saudade dos seus costumes, da sua gastronomia, do cheiro do seu lar, unicamente para procurar uma vida melhor que garantisse o futuro dos seus filhos, consegue anos depois, mostrar-se contra os cidadãos de outros países que tentam seguir-lhes o exemplo trabalhando em Portugal.

Como aceitar que gente que se diz defensora dos Direitos Humanos, gente que frequenta igrejas, e reza, aceite votar num partido que defende a pena de morte, a prisão perpétua e a castração química?

Gente que consegue aceitar os discursos de um charlatão que vai contra as palavras do Papa e dos líderes das outras religiões.

(Foto: D.R.)

Como aceitar que portugueses votem em indivíduos que, em Plenário na Casa da Democracia, ofendem o Presidente da República de um País amigo, como o Brasil?

Se pensavam que tudo mudaria se o partido crescesse, ao ponto de poder integrar o Governo de Portugal, devem ter ficado esclarecidos quando viram a reacção do líder à decisão do Partido vencedor quando este não aceitou, e bem, sequer ouvir as suas ideias e propostas.

A explicação é simples:

O PSD e o PS pertencem, desde a sua fundação, à mesma “família política”: a social-democracia.

Têm, ambos, 77 deputados eleitos e mais de 1.800.000 votos, cada um.

O Chega pertence à extrema-direita, nada tem a ver com a ideologia do partido vencedor, e conseguiu 50 deputados e 1.100.000 votos.

O PSD quer, e bem, tentar governar sozinho.

O PSD quis, e bem, ter a possibilidade de eleger, de entre os seus, o Presidente da Assembleia da República.

Luís Montenegro, líder do PSD, sucede ao socialista António Costa no cargo de primeiro-ministro. (Foto: D.R./Foto oficial divulgada por António Costa)

O Chega, desde que os resultados foram conhecidos, esqueceu as vaidades, a soberba, os discursos de vitória e passou a mendigar lugares e atenção.

Ao não conseguir esses intentos, boicotou a eleição e prometia prosseguir nessa via por tempo indeterminado.

Seguiu-se o normal: um entendimento entre adversários, civilizados, que optaram por, com custos para ambos, ultrapassar o problema.

“Vale mais um mau acordo que uma boa demanda”, é um provérbio antigo.

Seguiu-se, de novo, a soberba e a vaidade:

“Vamos liderar a Oposição!”, garantiu o líder de um partido com 50 deputados acreditando que o que dispõe de 77 lhe dará essa hipótese.

Após o que voltou aos discursos populistas e raivosos.

André Ventura criticou o acordo entre PSD e PS para a escolha do presidente da Assembleia da República. Ventura acusou o PSD de colocar o interesse partidário e a pressão da extrema-esquerda acima de Portugal e da estabilidade. (Foto: Captura a partir de imagem da AR-TV)

No primeiro discurso da nova Legislatura, começou com as ameaças de represálias tratando por tu, em Plenário na Casa da Democracia, o primeiro-ministro eleito, e ofendendo, com linguagem de taberna, o presidente cessante da Assembleia da República.

Ao líder do CDS garantiu que este só estava no Parlamento graças ao PSD, que o aceitara numa coligação, esquecendo que, desde que se conheceram os resultados, pedira insistentemente uma reunião, “onde o líder do PSD quiser, à hora que quiser”, para ver se este aceitava coligar-se com ele no Governo.

Ficou a falar sozinho.

Pode ser que todos os que nele votaram, por se sentirem zangados, desprezados, humilhados, até, compreendam que essa não é a escolha certa.

Quem dera que este episódio tenha sido mais um aviso de que chega de lhes dar uma importância maior do que aquela que merecem.

Vítor Ilharco é assessor


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