A mulher que carregava dois felinos no nome

Pede-me o discreto senhor doutor Tchevov, graduado em Medicina pela Universidade de Moscou, meu mantenedor estilístico e intelectual, que, em face de estarmos neste momento nos dirigindo a Portucale, em companhia do senador Rosario La Ciura, eu lhe conte (a ele, Anton) alguma história que tenha porventura vivido naquela antiga nação marítima. Vamos lá!
Certa vez, há mais de vinte anos, depois de conhecer a portuária cidade do Porto, dirigi-me a passeio ao concelho de Cinfães, pois foi de lá, mais exatamente da aldeia de Santiago de Piães, que partiu há muito, em direção ao Brasil, um de meus ascendentes.

Estava eu na Conservatória daquele concelho a tentar obter a certidão de nascimento de minha avó pelo lado materno quando parou ao meu lado, diante do balcão, um homem enxuto de carnes e de rosto martelado em granito.
– Ora, pois, que os diabos me carreguem se não se trata do senhor Torga, escrevente e esculápio! – exclamei.
– Pois não – retrucou, sereno e seco, o referido senhor, facultativo e, também, plumitivo, como o ínclito senhor doutor Tchecov.
– Sou cá leitor dos vossos contos – disse eu. – Admiro-os.
– Aos contos? Ou aos contos e a mim?
– Admiro ambos, pois sim, os contos e o senhor doutor, que é deles o escrevedor – respondi sorrindo e acrescentei de pronto: – É dura a vida na montanha, pois não?
– Pois sim, é.
– As coisas acabam sempre mal por lá. Brigas, mortes violentas, partos solitários, sangrentas capações de varões lúbricos, homens partindo para o Brasil, mulheres abandonadas, muita reza, padres trêfegos, cabras escoiceando nas lojas, chicanices, aldrabices, traições e bandalheiras.
– Pois assim é.

– Muito aprecio as palavras desconhecidas que as usa o senhor Torga, embora eu não lhes atinja o sentido. Padeço. Quando o leio, doutor, peno com o pai dos burros ao colo, folheando-o incessantemente, embevecido com o palavrório exótico…
– Exótico, diz o senhor?
– Guardo na mente alguns dos seus lindos vocábulos que carregarei para sempre: talefe, gravelhos, quelhas, bragal, jalapa, relheiras, escarolado, pirisca, engrunhada, taró, desembelinhava, sedeiro, bagalhoça, sarrafusca, lampo, enfrenisava, alanzoar, murra, rinhado, panasco, lapedos, cainça, garanho, lódão, churra, cieiro, capilota, moca, preguiceiro, carolos, ilhentas, monco, trasfegas, farroncas, pedrado, courelas, sulipas, gravelho, desolhada, andilha, reloucaste, pútegas, parança, corcódea, esbarrondas, larinhoto, pantanas, coiras, estrafegada, sanguinidades, boldrego, borga, poviléu, farsola, paleio, daimoso, estopinhas, regueifas, conques, escândula, catraio, cibo, palhiço, bacelo, santanária e cardenha. Ufa! Só lembro destas.
– Mas quanto às histórias, o senhor alcança-lhes o miolo, pois não?
– Pois sim, doutor.
– E com qual delas mais o senhor se impressionou?
– Falando seriamente, doutor Miguel, apaixonei-me pela história da Maria Lionça, mulher de um belíssimo nome, já que unifica e condensa as forças de uma leoa e de uma onça. Um nome dessa grande beleza só poderia resultar em mulher de redobrada fortaleza a ponto de suportar, sem lamúrias, a longa ausência do marido, o Ruivo, que fora garimpar ao Brasil e que só retorna quando muito doente e desenganado, por males ruins, para defuntear-se logo. Mas aí, quando o ledor acredita que se exterminaram os infortúnios de Maria Lionça, eis que, um dia, já idosa, recebe ela um telegrama de Leixões instando que vá buscar seu filho, que retorna estrompado, não por ter ido gastar-se ao Brasil, mas porque se destroçou, de marujo, varejando o salso argento. Deram-lhe o filho no hospital, a exalar o último suspiro. Meteu-se então a Maria Lionça no comboio com seu rebento ao colo, já a arrefecer, embrulhado numa manta, a pedir licença a todos, recitando que levava ali uma pessoa muito doente. Arredavam-se logo todos. E assim conseguiu sentá-lo e sentar-se a seu lado. E daí a pouco, no macho do Preguiças, o Pedro subia a serra para dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regaço de sua mãe. É isso, senhor doutor Miguel Torga?

Silêncio e compostura!
Não me venham dizer que o português lusitano, quando impresso, parece uma inepta tradução de um livro escrito originalmente em basco ou húngaro. E nem defendam que o português lusitano, quando falado, é claramente uma língua germânica, cuja pronúncia se assemelha à do francês canadense, língua, esta sim, falada única e exclusivamente pelo nariz. Lusitanu, locale.
Lourenço Cazarré é escritor
Texto originalmente integrado no livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas