Tanto amor para dar 

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Sílvia Quinteiro|30/03/2025

Está um dia que muitos achariam mau: cinzento, chuvoso, frio… Para mim é perfeito. A casa vazia, uma caneca de café XXL, uma tablete de chocolate com amêndoas — 553 calorias por 100 gramas — terá de pagar o mal que faz com o bem que sabe —, e um audiolivro, porque a moleza é tanta que nem dá para virar páginas.

Apetece-me hibernar. O único senão é ter prometido a uma amiga ir ao lançamento do seu primeiro romance. Vem-me à mente um conjunto de desculpas esfarrapadas: já comprei o livro, chove a potes, tenho o carro na oficina, vai estar imensa gente… Espero que não se ofenda, que não dê pela minha ausência. Porém, uma notificação no telemóvel diz-me o contrário:

— Jantamos juntas depois da apresentação?

Sinto-me a pior amiga do mundo. Como pude sequer pensar em não ir? Levanto-me, arranjo-me e dirijo-me à estação. Aos domingos, o comboio costuma ir vazio. Hoje, não. Há uma multidão a aguardar, e já vem cheio. Percorro a carruagem em que entrei, depois a seguinte e, finalmente, avisto um lugar vago. Um passageiro colocou uma mala de viagem e uma mochila no banco. Aproximo-me, na expectativa de que desvie os pertences. Olha para mim, eu para ele… e nada. Avanço mais um pouco. Voltamos a encarar-nos, mas, desta vez, tem no rosto uma expressão de desagrado. Digo-lhe:

— Dá-me licença?

Responde, num inglês com sotaque alemão, que não tem onde colocar a bagagem. Aponto para cima:

— Ali! — digo em português.

E, enquanto ele continua com ar de enfado, ouço uma voz:

— Há de querer que o senhor ponha as malas à cabeça!

Ignoro e insisto. Percebendo que não vou recuar, e com uma irritação indisfarçável, o homem coloca a mala no corredor e a mochila ao colo.

Sento-me, e uma senhora, indignada com a minha petulância, lamenta o facto de o coitado ter de ir assim até Lisboa.

Acomodada no meu lugar, coloco os auscultadores e continuo a ouvir a leitura, entretanto interrompida. Procuro relaxar e concentrar-me, mas sem sucesso. Há um barulho e uma movimentação fora do comum nestas viagens. Os passageiros, maioritariamente mulheres de meia-idade, agitam os braços no ar de modo sincronizado e cantam. Fico curiosa. Retiro um auricular: cantigas de amor, daquelas em que “coração” rima com “canção” e que se entoam revirando os olhos. O volume aumenta, no que é claramente uma competição para mostrar quem  sabe melhor as letras, quem é a maior fã, a verdadeira. A excitação está ao rubro. Erguem-se cartazes, cachecóis, camisolas, almofadas com o rosto do ídolo,  fotografias tiradas ao seu lado.

É dia de concerto e caí no olho do furacão. Estou no Inferno! Espreito de soslaio o senhor das malas e, pela expressão, aposto que não volta a Portugal. Bem feita!

Regresso ao meu livro, aumento o volume e vou ouvindo o que consigo até chegarmos ao Parque das Nações. As fãs, enlouquecidas, atropelam-se para sair. Sim, porque também na pressa de chegar se expressa a devoção.

Lá fora, avisto vendedores de grinaldas de flores brancas e luzinhas, rodeados de senhoras que se enfeitam como podem, na ânsia de serem notadas.

— Amo-te, Tony! – Grita uma.

— Bates forte cá dentro, Tony! – Grita outra.

— Ai, Tony, se eu não fosse casada! – Ameaça uma terceira.

É muito amor! Podia até ser comovente, não fosse a mesma senhora que expressou grande preocupação com o cavalheiro alemão ter chocado com um grupo de rapazes que estava na plataforma. Estes, percebo de imediato, não batem forte lá dentro.

Mão na anca, o pêlo eriçado e a mandíbula escancarada a escorrer saliva de quem ataca em matilha, vocifera:

— Isto está cheio desta gente!

— Não se pode andar na rua sem dar com esta canalha!

— Não há quem tenha mão nisto e os mande para a terra deles?

Tento imaginar que crime hediondo poderão ter perpetrado aquelas criaturas para assanharem, desta forma, uma senhora tão doce, tão misericordiosa, tão preocupada com o próximo… E não posso deixar de pensar como teria ela reagido quando entrei na carruagem se, em vez de um alemão loiro e de olhos azuis a ocupar dois lugares, lá estivesse sentado um daqueles rapazes, mesmo que encolhido.

Tanto amor para dar… a alguns.

Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve

N.D. As ilustrações foram produzidas com recurso a inteligência artificial.

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