Carnificina de idosos

Mortes por todas as causas dos maiores de 85 anos em Abril e Maio estiveram 32% acima da média

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por Pedro Almeida Vieira // junho 5, 2022


Categoria: Actual

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O PÁGINA UM analisou a mortalidade total em Abril e Maio de 2022 e foi confrontar com anos anteriores, tendo concluído que a Primavera deste ano está a ser dramática para os maiores de 85 anos. Após dois anos de pandemia e doses sucessivas de vacinas, a covid-19 já não explica tudo, ou não explica quase nada. Numa altura em que o Ministério da Saúde se regozija de já ter vacinados com a quarta dose cerca de 200 mil idosos, talvez seja altura de perguntar, e investigar mesmo a sério, porque estão tantos idosos a morrer de repente.


Numa altura em que o processo de vacinação contra a covid-19 entra numa “quarta ronda” – isto é, segundo reforço após a denominada “vacinação completa” –, assiste-se em Portugal a um desastre de Saúde Pública: a mortalidade dos mais idosos está a atingir, nesta Primavera, níveis inusitadamente elevados.

De acordo com a análise do PÁGINA UM à mortalidade dos meses de Abril e Maio de 2022, em comparação com os períodos homólogos – com base nos dados do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO) e do Instituto Nacional de Estatística (INE) –, observa-se um acréscimo de 32% da mortalidade por todas as causas face à média dos cinco anos anteriores à pandemia (2015-2019).

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Com efeito, para este grupo etário – que excede já a esperança média de vida –, foram contabilizados em Abril e Maio deste ano um total de 9.307 óbitos, o valor mais alto de sempre, enquanto que entre 2015 e 2019 faleceram em média, nestes dois meses, uma média de 7.044 pessoas, ou seja, mais 2.263 mortes.

Caso se compare com Abril e Maio de 2020 – logo no início da pandemia sem vacina, sem experiência terapêutica, mas também sem sinais ainda da degradação da qualidade do SNS –, o presente ano mostra um incremento de 569 mortes, isto é, mais 6,5%.

Contudo, se se confrontar com o ano passado – com praticamente toda a população vacinada, mas após o mais “negro” período de mortalidade de que há registo em Portugal (Janeiro e Fevereiro), o incremento dos óbitos deste ano em Abril e Maio é avassalador: mais 2.309 mortes, o que representa mais 33%.

O cenário deste ano ainda é mais preocupante, porque claramente não surge associada à covid-19. Embora não seja possível saber com exactidão quantos óbitos por covid-19 de maiores de 85 anos houve nos meses de Abril e Maio deste ano – a DGS sempre optou, intencionalmente para dificultar análises independentes, por “dessincronizar” os grupos etários quando apresenta mortes atribuídas ao SARS-CoV-2 e mortes por todas as causas –, o PÁGINA UM estima que esta doença terá sido a causa de, no máximo, 10% de todas as mortes neste grupo etário.

Mortalidade por todas as causas em Abril e Maio desde 1996 até 2022 nos maiores de 85 anos. Fonte; INE (1996-2021) e SICO (2022).

Essa estimativa advém do facto de a DGS apontar para a ocorrência de 1.109 mortes por covid-19 para os maiores de 80 anos entre 29 de Março e 30 de Maio deste ano. Ou seja, tal significa que a mortalidade nos maiores de 85 anos terá sido, com grande probabilidade, menor do que 930 óbitos, necessários para perfazer 10% do total.

Este incremento da mortalidade nos mais idosos ainda se mostra mais preocupante na presente Primavera – mesmo quando, repita-se, estamos a referir um grupo etário acima da esperança média de vida –, porque decorre após dois anos de morticínio nesta faixa etária.

Com efeito, de acordo com dados do INE e SICO, entre Março de 2020 e Fevereiro de 2022, a mortalidade total nos maiores de 85 anos foi de 110.659 óbitos, um aumento de 12% face ao período homólogo imediatamente anterior à pandemia (Março de 2018 a Fevereiro de 2020), onde se registaram, para este grupo etário, um total de 98.864 mortes.

Convém referir que comparações com anos anteriores devem ser feitas com precaução, sobretudo com décadas anteriores, uma vez que a população muito idosa (maiores de 85 anos) tem vindo a aumentar ao longo do tempo, em função da diminuição da mortalidade precoce.

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Por exemplo, os maiores de 85 anos em 1989 representavam apenas 0,9% da população (cerca de 90 mil pessoas), em 1996 situava-se já em 120 mil (1,2%), enquanto em 2020 já chegavam aos 320 mil (3,2%). Ou seja, sendo “natural” ocorrer uma maior concentração de óbitos na faixa dos mais idosos – a taxa de mortalidade, antes da pandemia, rondava os 15% por ano – , a actual dimensão, neste período do ano (Primavera), já não é.

Contudo, até agora, este acrescimento brutal da mortalidade nos mais idosos não incomoda as autoridades de Saúde nem o Governo nem os denominados “peritos”, que não esboçam qualquer reacção nem procuram sequer estabelecer uma causa científica.

Saliente-se que a actual situação portuguesa, para o grupo etário dos maiores de 85 anos, é única na Europa, de acordo com os dados analisados pelo EuroMomo. Portugal e Alemanha são os países que apresentam um estranho acréscimo de mortalidade nos mais idosos, situação que contrasta com a generalidade dos restantes Estados que estão com mortalidade dos mais idosos em níveis inferiores à média.

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