VISTO DE FORA

O show do Pastor Ventura com o sangue afegão

person holding camera lens

por Tiago Franco // Março 30, 2023


Categoria: Opinião

minuto/s restantes


Quando soube da morte de duas pessoas às mãos de um agressor armado com uma faca, em plena luz do dia em Lisboa, fiquei chocado. Não é, infelizmente, o tipo de notícia rara nos dias que correm, mas não costuma ter a capital portuguesa como local da ocorrência.

Daqui da Suécia, desconhecia totalmente o Centro Ismaili, ou a sua comunidade, e, como tal, escuso-me a engrossar o rol de pessoas que elogiaram a sua accão na integração de emigrantes. Estou certo que fazem um trabalho louvável, e não será esse o objecto deste texto.

person hands with black liquids

Parto da tragédia como ponto de análise. Duas pessoas foram assaltadas no seu local de trabalho e assassinadas. Há várias questões que a partir desse momento são importantes para o debate. Tudo isso passou para segundo plano assim que se soube a identidade do autor do crime: afegão. 

Pessoalmente, comecei a fazer contas aos minutos que faltariam para a primeira intervenção de André Ventura. Como é óbvio, ele não desiludiu. Um afegão em Lisboa envolvido num crime é tudo o que a extrema-direita precisa para começar a cavalgar a onda do populismo.

Contudo, não estiveram sozinhos na empreitada. Vi um ex-inspector da PJ que à pergunta “por onde deve começar a investigação”, começou por responder que “os políticos abrem as fronteiras e vendem o sonho do El Dorado europeu”. 

O ódio e o xenofobia começam a ser sentimentos normais, até corriqueiros, nesta Europa que vai levantando muros todos os dias.

A quantidade de disparates, de incitação ao mais básico racismo e de falta de sensibilidade foi de tal forma grande nas horas seguintes ao crime que, no fim, acabámos por não perceber o que interessava (as razões daquele crime) e cedemos o palco a demagogos que vivem da exaltação da raiva.

A meio do dia vi que tinham convidado Ventura para um debate numa televisão. Quem é que tinha alguma dúvida do discurso que aquele energúmeno ia debitar? E que mais-valia é que podia trazer à conversa, para lá de pedir votos em cima do sangue derramado? 

Foi quase penoso de ouvir. Mas, aposto, foi eficaz como faca quente em manteiga; aquele discurso de ódio cativou mais uns votos.

Entre os argumentos mais idiotas está o de acolher gente que foge de guerras ou de países árabes. A primeira pressupõe que, se chegam de zonas de conflito, estão todos malucos e de faca nos dentes. O padre que acompanha o Ventura e lhe dá a mão, provavelmente, ainda não teve tempo de lhe explicar que é exactamente pela guerra que precisaram de fugir. Se a NATO ou as potências vigentes pararem de lhes bombardear o quintal, pode ser que não precisem de vir para o “El Dorado europeu”. É questão de, no confessionário, o André abrir os olhos enquanto lhe fazem o desenho.

O outro soundbite forte é que “não é a mesma coisa receber um brasileiro ou um paquistanês”. Esta conversa faz-me lembrar as gritarias dos ciganos e do RSI e, quando se foi ver, os beneficiários daquela fortuna de 100 euros eram uma gota no oceano. Ora, com os “emigrantes que não são de bem”, a conversa é a mesma. Portugal tinha uma quota de 10 mil lugares para refugiados e acolheu pouco mais de mil.

group of children standing on grass field during daytime

Ou seja, por mais que o Ventura grite, a realidade é que nem a fugir de rajadas de metralhadora os refugiados escolhem Portugal como destino. Mesmo assim, os poucos que cá vêm parar têm que levar com as bandeiras do Chega e ser usados como bode expiatório. Todos os dias há assaltos de “emigrantes de bem”. Todos os dias há problemas com portugueses. Mas se um crime é levado a cabo por um afegão, está a generalização feita a sírios, paquistaneses, iraquianos e aos outros afegãos todos. 

Aquele energúmeno – julgo que é um nome aceitável para o desempenho – até chegou a dizer que o PS e PSD tinham votado a favor da lei que tinha permitido que este homem, depois de ver a mulher morrer num campo de refugiados da Grécia, tivesse conseguido chegar a Portugal com os três filhos menores. 

Como o país está a envelhecer – julgo que essa estatística André Ventura saberá –, ainda se deu ao luxo de dizer que devemos acolher emigrantes mas apenas alguns: os que vêm trabalhar e contribuir para o país, não os que fogem de zonas de guerra. É um conceito engraçado, porque, se a memória não me falha, os louros que fugiram da Ucrânia vinham contribuir; já os que fugiram dos Talibã, nem tanto. Mas é curioso que nos tempos do PSD, o mesmo André defendia que devíamos receber os refugiados sírios.

É uma solidariedade à la carte, ao sabor do vento das redes sociais e sempre, mas sempre, ao encontro do que pode trazer mais uns votos.

group of people walking on pedestrian lane

Ventura diz, como diz sempre a cada desgraça, que o Governo tem sangue nas mãos, porque permitiu que este homem entrasse no país. Mais lógico seria afirmar que ele, por cada discurso de incentivo ao ódio, fica com as mãos ensaguentadas de cada vez que um crime racial acontece. E esses, ao contrário do ataque no Centro Ismaili, não são tão raros nos tempos que correm.

Alguém me explicará como é que um partido sem ideologia ou ideias próprias, para lá do racismo e do ódio, chegou um dia a terceira força política de um país de emigrantes, como é o caso de Portugal.

E como é que, num dia de absoluto drama e sofrimento para as famílias envolvidas, o homem mais citado, visto e ouvido é o Pastor Ventura?

Trilhamos caminhos perigosos. 

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

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