ARQUITECTURA DOS SENTIDOS

Aveiro: crónica dos lugares

brown and blue wallpaper

minuto/s restantes

Percursos ainda se fazem assim em terras lusas – as placas, as que melhor se aguentam, aquelas que parecem verdadeiras, em molde de cimento, pintadas de branco, letras negras, para ali sabemos que, a partir dali, se inicia uma terra, outra terra, pouca terra.

Mas aqui é diferente. As aguarelas são pintadas na ria de Aveiro, pela ria de Aveiro. Canais estendem-se por pântanos, e cegonhas a deslizar no ar, uma com uma cobra no bico (aqui comem cobras e lagartos). E flamingos ceifando crustáceos, e as cores esbatendo-se, difusas, em diferentes planos, ali no horizonte.

people in boat in front of buildings

Se desviamos o olhar de casas que insistem em ferir as vistas, em cimento húmido e contornos brutos, conseguimos ver telas dignas de museu, e melhor ainda, pois estão vivas (aqui dizem cobras e lagartos).

E ora pois que raio! Que lindo! Não vêem? Não ouvem? Terão as casas olhos? Terão as casas ouvidos?

Pois o que fazem agora a casas e línguas que se perdem as subtilezas? As nuances, o enredo. Não peço frufru, arre! Peço saliva enrolada a lamber os conceitos, as formas, os remates! Não este indecente percorrer de palavras directas, comunicação, rudeza torpe e pensamentos esquemáticos em tabulações ocas! Tão ocas que lhes ouvimos o eco de gota que cai da torneira

Ping…

E nota-se que esperamos outra. Arre!

Não. Acalmemo-nos. Quero o deslizar daquelas asas, suavemente sobre a ria que, se espelha, resplandecente e nítida, ocre, verde acinzentado, a esbater-se no plano, ao longe, que esconde fábricas num pano de fundo azulado, diáfano, etéreo.

A ponte, corcunda se debruça na outra margem, que serve para desaguarmos, calmamente, na atlântica continuidade do caminho.

brown wooden dock on sea under blue sky during daytime

Couves galegas encostadas às meações como reduto de subsistência, um canteiro horta onde se consegue semear. Em Aveiro, as casas não se encostam umas às outras. Nem que seja a largura de ombros de alguém franzino, sobra com distância de segurança, as portas erguem-se degraus em relação à rua, como se as casas arregaçassem as saias para quando a água passar.

Vamos aos cricos.

O vento, sempre o vento. Que nos segue por cada ponto cardeal de maneira incompreensível, não há muro que nos resguarde, como se o mar quisesse manter o seu poder de arear a terra (que gorda que nasce aquela batata). São sítios, como muitos sítios. Fisionomias que ficam de quem flutua em moliceiros e colhe sal do mar.

Flor de sal.

– O que é aquilo branco na água, mãe?

É sal, é a espuma do sal (espuma dos dias), algo que existe para deixar de existir num pequeno embate, excepto para quem aporta remos a pentear as ondas para pescar tempero.

(E a espuma dos dias da lista do Jeffrey Epstein? Curioso, a cada trimestre ou coisa e tal, lá vem tema quentinho do forno para nos entreter, para nos pôr às turras, a dar mais umas opiniões, mais umas especulações, e outras coisas acabadas em ões.)

gray pathway near lighthouse

Batam pratos. Batam panelas. Batam com os talheres na mesa para exigir o sal e o pão (paz, habitação).

Caminhos e lugares, podemos fazer crónicas de passeio em silêncio a ver a paisagem esbatida em água, entretidos com a desgraça alheia, alheados do entretenimento desgraçado.

O que conta é a viagem.

Mariana Santos Martins é arquitecta


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