Recensão: Uma educação

Até para nascer é preciso sorte

por Maria Carneiro // Julho 8, 2023


Categoria: Cultura

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Título

Uma educação

Autora

TARA WESTOVER 

Editora (Edição)

Bertrand (Setembro de 2018)

Cotação

15/20

Recensão

Tara Westover é uma ensaísta e historiadora norte-americana. Em 2019 foi considerada pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do ano. Licenciou-se em Cambridge, em 2009, e no ano seguinte foi professora convidada da Universidade de Harvard. Mais tarde, regressou a Cambridge onde, em 2014, se doutorou em História com a tese "The Family, Morality and Social Science in Anglo-American Cooperative Thought, 1813–1890".

Uma educação, estreou em 1.º lugar na lista de best-sellers do The New York Times e foi finalista de vários prémios, incluindo o LA Times Book Prize, o PEN America's Jean Stein Book Award e dois National Book Prêmio Círculo de Críticos. O New York Times classificou este livro como um dos 10 melhores de 2018.

Talvez isso se justifique por ser-nos revelado, neste livro, as suas experiências dramáticas e perturbadoras.

Tara é a mais nova de sete filhos de uma família mórmon, no estado do Idaho, nos Estados Unidos. A família fazia uma interpretação fundamentalista do mormonismo e estabelecia regras sobre todos os aspectos da vida de Tara, como seja o que poderia vestir, que hobbies e que contactos poderia ter com o mundo exterior. 

Nasceu em casa, porque os pais desconfiavam de médicos, hospitais e medicamentos. Não foi registrada até aos nove anos de idade, e quando chegou a altura de o fazer ninguém sabia muito bem em que dia ou mês ela tinha nascido. Os pais também não acreditavam na Educação ministrada na Escola Pública, de forma que nenhum dos irmãos a frequentava.

Foram educados pela mãe, e um dos irmãos mais velhos ensinaou Tara a ler, usando as escrituras da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos DiasApesar de estar no ensino doméstico, nunca prestaram provas, nem sequer fizeram uma redacção ou participaram em qualquer outra actividade de educação formal. A família via as escolas como parte de um exercício de lavagem cerebral, por parte do Governo. O seu pai, obviamente, e obrigando a família a ajudá-lo, armazenava armas e mantimentos, preparando-se para o fim do Mundo e para se proteger de qualquer tentativa do Estado em imiscuir-se na vida da família.

“A minha família passava sempre os meses quentes a cozer e a enfrascar fruta para armazenar, pois o meu pai dizia que precisaríamos dela na Abominação da Desolação (...) Passamos o dia seguinte a descascar e cozer pêssegos. Ao entardecer tínhamos enchido dezenas de frascos, que foram preparados em filas perfeitas, acabadinhos de sair da panela de pressão”.

Esta paranóia manteve-se mesmo em casos de emergência, como, por exemplo, quando a família se feriu gravemente num acidente de viação e recusou a ajuda médica por considerarem os hospitais e os médicos como agentes de um Estado maligno.

Mesmo quando gravemente feridas, as crianças eram tratadas apenas pela mãe, uma curiosa do herbalismo e de outros métodos alternativos de cura, para além de praticar como parteira de uma forma clandestina. “O trabalho de parteira mudou a minha mãe. Era uma mulher adulta, mãe de sete filhos, mas pela primeira vez na vida era ela quem mandava. Cobrava cerca de quinhentos dólares por parto e esta foi a outra coisa que o trabalho de parteira mudou nela: de repente tinha dinheiro”.

E, depois, havia a sucata. A sucata era o local de trabalho do pai e dos irmãos mais velhos, até que um dia passou a ser também o de Tara. Era um local onde se desenvolvia um trabalho de extrema violência e onde era necessária muita força física, algo que uma rapariguinha não tinha. Passou uma infância obrigada a trabalhar entre máquinas, sempre à beira de ser triturada pela maquinaria e sem que o pai demonstrasse um mínimo de preocupação.

Quando crescesse, Tara sabia bem o que lhe estava destinado: aos 18 ou 19 anos “casava-me”; “o pai dava-me uma quinta” e “o marido fazia ali a casa”; a “mãe” ensinar-lhe-ia a ser parteira e “a usar ervas medicinais”. Os CDs de música clássica do irmão Tyler procuraram fazer a diferença na sua vida. Ouviu-os vezes sem conta. A música e a dança marcaram a sua adolescência – ainda que, mesmo aí, com mil cuidados, não pudesse usar roupa um tudo ou nada mais colada ao corpo. O pai chamava prostitutas às mulheres que o faziam. 

Na primeira vez que usou batom, o irmão Shawn chamou-lhe galdéria – ela que, aos 15 anos, nada sabia sobre concepção, nunca beijara um rapaz, mas chegara a julgar poder estar grávida. Tyler, o irmão que gostava também de aprender com os livros, e se fechava no quarto a estudar contra a vontade paterna – “um homem não pode ganhar a vida com livros e folhas de papel”, “os doutorados eram Filhos da perdição” –, ajudou-a a dar o salto e a preparar o exame final dos estudos secundários que completou com sucesso.

Depois disso, foi sempre em crescendo até entrar para uma das mais prestigiadas universidades do Mundo. No entanto, o trauma, as gravações dramáticas e a família neurótica, de quem se foi afastando, marcou-lhe a vida e, ainda hoje, embora ausentes da sua vida, continuam a assombrar-lhe os sonos.

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