Recensão: A criada

O quarto que fecha por fora

por Maria Carneiro // Julho 20, 2023


Categoria: Cultura

minuto/s restantes

Título

A criada

Autora

FREIDA MCFADDEN (tradução: Carla Ribeiro)

Editora

Alma dos Livros (Junho de 2023)

Cotação

18/20

Recensão

Freida McFadden, a autora deste thriller psicológico, é médica e especialista em lesões cerebrais. Talvez, também por isso, o relato que faz de algumas personagens seja com conhecimento de causa, por mais inverosímeis que nos pareçam os seus actos. O cérebro humano é cheio de surpresas.

Neste romance, a autora inventa cenários inesperados e fora do comum, que nos apanham sempre de surpresa. É uma história cheia de voltas e reviravoltas, daquele género de narrativas que não conseguimos largar, porque sabemos que a próxima página nos reserva sempre surpresas, e queremos sempre saber o que vai acontecer.

O livro conta-nos a história de Millie, uma mulher recém-libertada da cadeia, por um crime que inicialmente desconhecemos, e que procura emprego. Mal acredita na sua sorte quando é contratada por Nina Winchester, como empregada doméstica interna. Millie dorme no carro e está em liberdade condicional, de forma que ter o seu próprio quarto e tratar, aparentemente, de funções domésticas sem grande dificuldade, lhe parece uma sorte incrível.

A casa é maravilhosa, Nina recebe-a muito amistosamente, mas aquilo que inicialmente lhe parecia uma bênção foi aos poucos transformando-se num enorme pesadelo. A patroa parece deleitar-se em enlouquecê-la, criando situações de mal-entendidos e sujando e desarrumando a casa toda apenas para ver Millie a limpar e a arrumar. 

Para piorar as coisas, conta mentiras estranhas sobre a sua própria filha, Cecelia, uma criança de nove anos, caprichosa e mal-educada e com quem Millie tem imensas dificuldades em lidar. O único que parece escapar a este cenário é Andrew, o marido de Nina, um perfeito cavalheiro, lindíssimo, sempre irrepreensivelmente vestido, com um grande emprego e um grande carro. Ama a mulher e trata-a, aparentemente, muito bem. O marido perfeito, em suma.

A primeira parte do livro, dedicado a Millie, fala-nos, pois, das suas funções, na casa, do seu emprego e dos mau tratos que Nina lhe inflige, mas que ela vai suportando porque a última coisa que quer é voltar a dormir no seu carro e, sendo despedida, sabe que irá ter dificuldade em arranjar um novo emprego, com o cadastro que tem. Afinal, ter o seu próprio quarto, apesar deste ser um aposento onde só cabe uma cama e com um armário minúsculo, parece-lhe uma boa troca. Até descobrir que o quarto só se fecha à chave, do lado de fora. 

Descobriremos, depois, terríveis segredos na segunda parte do livro, dedicado a Nina. 

Se há uma coisa que a grande maioria dos thrillers têm em comum são as caracterizações claras dos vários personagens. Os protagonistas são invariavelmente os bons, enquanto que os maus são identificados com precisão e descritos de forma a atrair nossa antipatia, respeitando, assim, as convenções clássicas. Millie é inegavelmente a vítima, e Nina a vilã, que queremos que seja castigada. Assim, quando Millie se começa a apaixonar por Andrew, quase desejamos que a criada fique a viver com o patrão e a malvada patroa seja expulsa de casa. E isso acontece, mas, quando acontece, saber que aquele quarto só fecha do lado de fora começa a fazer todo o sentido. Ou não...  

A maior parte do romance concentra-se nas relações entre estas três pessoas, altamente disfuncionais e atormentadas à sua maneira. Às vezes bem-humoradas, e outras vezes bastante terríveis e preocupantes, as interações que têm uns com os outros é o que faz mover a história. E McFadden sabe exatamente como aumentar, consistentemente, a perturbação que vamos sentindo à medida que o lemos sabendo, de antemão, que todas as personagens correm perigo, que não sabemos bem qual até à última página. 

Do ponto de vista formal, o romance não traz nada de original, nem que mereça menção, mas o seu conteúdo não deixa o leitor indiferentes. Portanto, uma óptima leitura para o Verão.

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