Vértebras

Da Suécia, com amor. De Portugal, com estupor

Vértebras

por Pedro Almeida Vieira // agosto 6, 2022


Categoria: Opinião

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Desde o início da pandemia, a Suécia foi eleita pelos media do mundo ocidental como o “patinho feito”, indiciado como o “cisne negro” desumano e frio, que permitiu, na primeira fase da pandemia – com um acréscimo inicial de mortes –, consolidar a narrativa da eficácia de medidas restritivas draconianas, independentemente da sua cientificidade.

O populismo e o alarmismo – e acrescento agora a hipocrisia – “crucificaram” no pelourinho público uma verdadeira estratégia de Saúde Pública. Recordo aqui as palavras de Ann Lind, a ainda ministra dos Negócios Estrangeiros deste país nórdico, em Maio de 2020: “Isto não é um sprint; é uma maratona”.

multi colored paper on brown cardboard box

Mas pouco importou. A despeito da existência de problemas iniciais nos seus lares – que, na verdade, se evidenciaram porque existe uma cultura de transparência e responsabilização; aqui em Portugal simplesmente esconde-se –, a estratégia da Suécia sempre foi olhada com desdém pelos políticos e media ocidentais. Quem, em Portugal ou fora da Suécia, concordasse com as estratégias daquele país nórdico era rotulada de negacionista, egoísta e desumano.

E qual era essa estratégia? Recuperemos as palavras da ministra sueca: “[A nossa estratégia] baseia-se numa perspectiva de longo prazo sobre como podemos salvar vidas, proteger o nosso sistema de saúde e garantir que nossa sociedade e a população saiam o mais ilesas possível”.

Um dia a História demonstrará, por certo, os erros e os crimes (por negligência ou intencionalidade, por razões políticas e de negócio) que se foram cometendo desde 2020, e que estão a resultar naquilo que certa imprensa nacional diz ser um mero “falhanço da sociedade”, e ainda por cima “de todos”, como diz uma notícia de hoje do Expresso.

apple fruit with plastic syringes

Não é de todos, não. É de alguns. É dos políticos. É das políticas. É de certa (quase toda a) comunicação social que, há dois anos, vilipendiava a desumana Suécia ao mesmo tempo que patrioticamente cantava hosanas ao “milagre português” entronizado por Marcelo Rebelo de Sousa na Primavera de 2020.

Em Portugal, nunca se pensou no médio prazo nem no longo prazo, nem de como sairíamos disto depois disto acabar [se calhar, não se quer formalmente acabar para evitar “fazer contas”]. Pensou-se no dia-a-dia, no “salvar o coiro”, no encontrar “bodes expiatórios” (o frio, o calor, o próprio vírus, os não-vacinados; os irresponsáveis em geral) em vez de implementar soluções.

Pessoalmente, não me surpreende agora, mais de dois anos após o anúncio da pandemia – com o SARS-CoV-2 perfeitamente em estado endémico –, o estado em que estamos na “maratona” falada pela ministra sueca.

Nove meses consecutivos de mortalidade sempre acima dos 10 mil óbitos. Recordes absolutos no número de óbitos em Maio, Junho e Julho.

E nem me surpreende já o modo impávido e sereno como se assiste a um gerontocídio sem precedentes, bem pior do que o do ano passado. O Governo esconde vergonhosamente dados; luta no Tribunal Administrativo – com toda a sua máquina jurídica e as suas tentaculares ligações – para não ser obrigado a revelar informação comprometedora.

E a Suécia? A Suécia, ora, ora, esse país hasteado como exemplo da desumanidade e do egoísmo.

Sim, e a Suécia? Sim, a Suécia, minhas senhoras e meus senhores? A Suécia, senhores políticos… A Suécia, meus camaradas jornalistas? Como vai a Suécia, nesta maratona?

people sitting on bench near brown concrete building during daytime

Regressou à normalidade. Mortalidade total perfeitamente em linha – e por vezes mesmo abaixo dos níveis da pré-pandemia, e sem todas as consequências sociais, económicas e de Saúde Pública que países como Portugal estão e estarão a sofrer.

No gráfico que aqui apresento, produzido através de dados oficiais tanto de Portugal como da Suécia, comprova-se as consequências no nosso país das péssimas políticas de Saúde Pública e os efeitos de uma comunicação social que as apoiou acriticamente. Dois anos depois, quando a covid-19 apresenta já uma taxa de letalidade ao nível da gripe, e quando tudo já deveria estar normalizado, Portugal apresenta, desde finais de Fevereiro deste ano, um aterrador excesso de mortalidade acima do período pré-pandemia (2015-2019).

A partir de Maio, esse excesso esteve quase sempre acima de 20%, e quando o tempo ficou mais quente supero os 40% e mesmo os 50%.

Variação (défice ou excesso, em média móvel de sete dias), em percentagem, da mortalidade diária em 2022 face ao período pré-pandemia (2015-2019) em Portugal e na Suécia. Fonte: SICO (Portugal); SCB (Suécia)

[Aliás, sobre as ondas de calor: obviamente estas causam um acréscimo de mortalidade (se não forem tomadas medidas de proteção), mas o factor mais determinante acaba por ser o estado de maior ou menor vulnerabilidade das pessoas; por exemplo, se eu aumentar a pressão sobre um ferro, ele pode manter-se “impávido”; mas se em vez do ferro houver um frágil pedaço de madeira, este pode quebrar com o aumento da pressão]

E agora, vai “ficar tudo bem”? Está tudo bem? Vai-se continuar a culpar a guerra da Ucrânia, as alterações climáticas, o infortúnio? Ninguém se preocupa com o obscurantismo do Governo? Nem com a inércia da Procuradoria-Geral da República? Nem com a tentativa de descredibilização perpetrada pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social contra o jornalismo independente que denuncia que o “rei vai nu”?

Vai-se continuar a chamar estupores aos suecos, enquanto se glorifica o país do senhor Gouveia e Melo para quem todas as vidas contavam, mas que, afinal, as deixa partir que nem tordos?

Para onde deve ir o nosso amor e o nosso estupor?

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